terça-feira, 28 de julho de 2015

Feriar

Feriar é um direito. Em Portugal, além de ser um direito é uma obrigação, para quem pretende manter alguma saúde mental. E feriar de uma forma radical, isto é, fazer férias cortando qualquer contacto com grande parte da realidade portuguesa que chega até nós através da comunicação social.
Vejamos. Desde as últimas férias, passou um ano, mas pareceu ter sido uma eternidade:
1. Passos Coelho continuou a ser politicamente insuportável, manteve a proficiência na arte do engano e da omissão e juntou ao seu curriculum de engodos aquilo que não foi capaz de esclarecer sobre o caso «Tecnoforma» e aquilo que foi descoberto acerca dos seus incumprimentos para com a Segurança Social. Numa sociedade civicamente mais exigente, estes dois casos chegariam e sobrariam para destituir um primeiro-ministro.
2. PSD e CDS continuaram a ser aquilo que são: partidos guardiães de um paradigma social e económico que preserva e desenvolve a injustiça e a desigualdade entre os cidadãos.
3. António Costa derrubou António José Seguro com o argumento de que com ele a oposição ao governo seria diferente, seria mais eficaz e mobilizaria os portugueses. Não cumpriu nenhuma destas promessas. O PS continuou a ser o que sempre foi: o partido-irmão do PSD.
4. Um ex-primeiro-ministro foi detido, por ser suspeito de ter cometido crimes graves. A esta lamentável circunstância — a de virmos a concluir que alguém que nos governou durante seis anos aproveitou esse período para enriquecer ilicitamente — juntou-se o folclore jurídico-político e o folclore da idolatria pública do preso. Pseudo-entrevistas do arguido; insultos e arrogâncias várias do advogado; cortejos, desfiles e cartazes promovidos por uma dúzia de crédulos alimentaram o populário.
5. O principal banqueiro português e toda a elite do BES e da (defunta) PT juntaram-se à infindável lista de políticos, banqueiros e empresários responsáveis pela destruição do país. As declarações que muita daquela gente proferiu na Comissão Parlamentar de Inquérito fizeram dos reality shows hinos à inocência infantil.
6. Crescimento do grupo de gente fútil e inútil que parasita em programas televisivos fúteis e inúteis e em revistas fúteis e inúteis. Várias tropas de escribas e de fotógrafos fúteis e inúteis alimentam este parasitismo. Inundam os quiosques com jornalecos e revistecas repletas de intrigas, de coscuvilhices e de poses grotescas que vão alimentando um circo ordinário.
7. Entretanto, as sondagens indicam que os portugueses continuam a pensar que os boletins de voto só contêm duas hipóteses de escolha: votar nos que destruíram o país antes deste governo ou votar nos que estão a destruir o país agora.

Que venham as férias... Até Setembro.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Isto existe?

É possível imaginar um país cujo sistema educativo permita que uma mesma disciplina, do mesmo ciclo de estudos, possa ser leccionada com três cargas horárias diferentes?
Perguntando de outro modo: alguém concebe que num mesmo país, com o mesmo governo e com o mesmo ministro da Educação, seja permitido que haja alunos que numa escola frequentem uma disciplina com uma carga horária de 135 minutos semanais e que, na escola ao lado, a mesma disciplina, do mesmo ciclo de estudos, seja leccionada com uma carga horária de 150 minutos, e que, numa terceira escola, uns metros mais à frente, a carga horária da mesma disciplina seja de 180 minutos?
É possível pensar que esses alunos e os professores desses alunos, com três cargas horárias diferentes, possam estar sujeitos ao mesmo programa, isto é, aos mesmos conteúdos e aos mesmos objectivos curriculares?
Alguém consegue supor que esta situação possa ocorrer no mesmo país, com o mesmo governo e com um mesmo ministro da Educação? E alguém admitirá que esses alunos possam ser sujeitos ao mesmo exame nacional?
Havendo, entre estes alunos, diferenças de tempo de aulas que podem ir até 4 aulas mensais que uns têm a menos do que outros — o que significa ter menos 32 aulas num ano lectivo e menos 64 em dois anos lectivos — é plausível serem submetidos ao mesmo exame?

Uma situação como a acima descrita é concebível?
Não, não é concebível.
Mas essa situação, apesar de não ser concebível, existe?
Sim, existe. Essa situação existe.
É num país africano?
Não, não é num país africano. É num país europeu.
Da Europa de Leste?
Não, não é num país da Europa de Leste.
É de um país da União Europeia?
É.
Que país é?
É aquele país que tem um governo com um primeiro-ministro e um ministro da Educação que a todo o momento falam de rigor e de competência.
Portugal?
Sim.
E qual é a disciplina em que isso acontece?
É na disciplina de Filosofia, do 10.º e 11.º anos.
Mas é uma situação recente?
Não, não é uma situação recente. Desde 2012 que isto acontece.
E o ministro não fez nada?
Fez, foi ele que criou esta situação e há três anos que a mantém. Ele próprio, Nuno Crato, o ministro do rigor e da competência.

Nota: Os alunos de Filosofia, do 10.º e 11.º anos do Ensino Recorrente, têm uma carga horária de 135 minutos semanais. Os alunos de Filosofia, do 10.º e 11.º anos do ensino Regular, têm uma carga horária de 150 ou de 180 minutos semanais, dependendo da escola em que estão matriculados... No final do 11.º ano, todos estes alunos podem ter exame nacional de Filosofia e o conteúdo do exame é o mesmo.

domingo, 19 de julho de 2015

Reavivando a memória - 3


«O dia 19 de Setembro foi o décimo em que Varsóvia esteve sob fogo de artilharia. Tinham morrido tantos polacos que os parques públicos começaram a ser utilizados como cemitérios [...]. Dirigindo-se aos habitantes de Danzigue, a 19 de Setembro, Hitler falou de "Deus Todo-Poderoso, que agora deu às nossas armas a sua bênção". [...] 
De Danzique, Hitler mudou-se para um hotel na estância de veraneio de Zoppot. Aí apresentou, a um grupo que incluía o seu médico particular, Dr. Karl Brandt, o chefe da sua Chancelaria, Philipp Bouler, e o chefe dos oficias-médicos do Reich, Dr. Leonardo Conti, o seu plano de extermínio dos loucos no interior do território alemão. A pureza do sangue germânico tinha de ser salvaguardada. [...]
O centro operacional do programa seria uma casa nos subúrbios de Berlim, o n.º 4 da Tiergartenstrasse. Foi esta morada que deu o nome à organização, a partir daí conhecida por "T4". [...] Nas palavras de um especialista nazi, o Dr. Pfannmüller: "É para mim intolerável a ideia de que a nata, a fina flor da nossa juventude, vá perder a vida na frente para garantir uma existência segura, nos manicómios, a débeis mentais e a elementos associais."
Logo desde os primeiros dias da Operação "T4", prestou-se especial atenção às crianças de tenra idade, principalmente aos recém-nascidos. Em Görden, próximo de Brandenburgo, uma instituição pediátrica estatal criou um Departamento Psiquiátrico Especial para a Infância, para onde eram enviadas e onde eram mortas crianças vindas de toda a Alemanha.»
Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, D. Quixote e Expresso. 

domingo, 12 de julho de 2015

Uma semana depois e um discurso que vale a pena ler

Fotografia de José Luís Mendes
1. Faz hoje uma semana que os gregos se manifestaram, através de um referendo, relativamente à proposta de Memorando apresentada pelo BCE, FMI, CE e pelo Eurogrupo ao governo grego. Um decidido e estrondoso NÃO foi a resposta. Apesar da chantagem e das múltiplas ameaças, apesar do terrorismo verbal, apesar dos bancos fechados, apesar da incerteza sobre o futuro, o povo grego resistiu a tudo e a todos, com uma coragem que impressionou.
Pelo conhecimento que vamos tendo da Grécia, não parece haver dúvidas de que estamos perante um país arruinado pela corrupção e por desigualdades obscenas. A responsabilidade desta situação é dividida pelos políticos do arco da governação grego, formado pelos mesmos partidos que formam o arco da governação português, e pelos políticos europeus que são da mesma família política de ambos os arcos da governação e que foram objectivamente cúmplices da situação a que aquele país chegou.
Com a assunção de funções governativas por parte do Syriza, observámos, pela primeira vez na história da UE, um comportamento político de resistência aos interesses e aos ditames que têm dominado a política europeia. Ainda que por vezes de forma errática e com ziguezagues de difícil entendimento, pelo menos para quem está de fora, a verdade é que resistiu, contestou e desconstruiu publicamente a estratégia avassaladora que tem vindo a destruir económca e socialmente vários países europeus. Até hoje, foi o único governo que o fez. E porque defende uma política diferente que colide com os interesses instalados, o governo grego é um alvo a abater pelos governantes dos outros dezoito países do euro. É por isso que, apesar das enormes cedências que os seus responsáveis aceitaram fazer (algumas delas ultrapassando claramente as linhas vermelhas inicialmente definidas), o massacre dos dezoito prosseguiu ontem e promete continuar hoje na reunião do Eurogrupo. Agora já não é suficiente a imposição de mais um programa de austeridade, é necessária a humilhação e a descredibilização do governo que ousou e ousa pensar diferente. 
Como é aceitável que homens como Dijsselbloem (presidente do Eurogrupo) ou Schäuble (ministro das Finanças da Alemanha) tenham ontem acusado os responsáveis gregos de não serem credíveis nem confiáveis, se o primeiro foi capaz de declarar no seu currículo possuir um mestrado em Economia Empresarial, pela University College Cork, quando esse programa nunca existiu nessa instituição irlandesa; e o segundo foi acusado de ter recebido dinheiro de um comerciante de armas num envelope, para financiar ilegalmente o seu partido, no tempo de Helmut Kohl?
Sem critério ético e com políticas fanáticas, o projecto europeu de paz e de bem-estar está em desmoronamento. Para este objectivo, a Grécia é apenas um pretexto.

2. Tentando contribuir para que não fiquemos sempre reféns da falta de seriedade jornalística de uma parte da nossa comunicação social, que deturpa ou omite parcial ou totalmente informação relevante, aqui fica a tradução integral, realizada pela página electrónica InfoGrécia, do discurso proferido pelo primeiro-ministro grego no Parlamento Europeu, na passa terça-feira:
Senhores Deputados, 
É uma honra para mim falar neste verdadeiro templo da democracia europeia. Muito obrigado pelo convite. Tenho a honra de me dirigir aos representantes eleitos dos povos da Europa, num momento crítico tanto para o meu país, a Grécia, como para a zona euro e também para a União Europeia como um todo. 
Encontro-me entre vós, apenas alguns dias após o forte veredito do povo grego, seguindo a nossa decisão de lhes permitir expressar a sua vontade, para decidir diretamente, para tomar uma posição e para participar ativamente nas negociações sobre o seu futuro. Apenas alguns dias após o seu forte veredito instruindo-nos a intensificar os nossos esforços para alcançar uma solução socialmente justa e financeiramente sustentável para o problema grego – sem os erros do passado que condenaram a economia grega, e sem a austeridade perpétua e sem esperança que tem aprisionado a economia num círculo vicioso de recessão, e a sociedade numa depressão duradoura e profunda. O povo grego fez uma escolha corajosa, sob uma pressão sem precedentes, com os bancos fechados, com a tentativa por parte da maioria dos meios de comunicação social de aterrorizar as pessoas no sentido que um voto NÃO levaria a uma rutura com a Europa. 
É um prazer estar neste templo da democracia, porque acredito que estamos aqui para ouvir primeiro os argumentos para, em seguida, poder julgá-los. “Ataquem-me, mas primeiro ouçam o que tenho para dizer”. 
(Para continuar a ler, clicar aqui).

domingo, 5 de julho de 2015

Ó Gregos

            
«Ó Gregos, não é porque me faltem soldados bárbaros que vos chamo, mas porque vos considero melhores e mais fortes que muitos bárbaros: por esta razão vos acrescento às minhas forças. Assegurai-vos pois de que estareis à altura da liberdade que possuís e pela qual vos digo abençoados. E ficai a saber que prefiro a liberdade a tudo quanto possuo e até a muito mais. Deixai-me explicar-vos para que guerra vos encaminhais. A massa do inimigo é vasta e avança com grandes brados; queirais vós enfrentá-los, inamovíveis; quanto ao outros, até a mim me envergonha a espécie de homens em que se tornaram os habitantes desta terra. »  
Palavras de Ciro, o Jovem, rei dos Persas, aos comandantes dos Dez Mil, seus aliados, e preservadas por Xenofonte, Anabasis, I. 7. 3-4 (séc. V a.C.)
(Agradecimento ao António Ferreira)

terça-feira, 30 de junho de 2015

Comentário e intervenção de Varoufakis

Da página electrónica do Expresso, o comentário, que o ministro das Finanças grego deixou no seu blogue, sobre o que se passou na última reunião do Eurogrupo:
«A reunião de 27 de Junho de 2015 do Eurogrupo não vai ficar na história da Europa como um momento de que nos possamos orgulhar. Os ministros recusaram o pedido do governo grego para que fosse concedido ao povo grego uma mera semana durante a qual diriam 'Sim' ou 'Não' às propostas das instituições — propostas cruciais para o futuro da Grécia na Zona Euro. A simples ideia de que um governo consulte o seu povo quanto a uma proposta problemática que lhe é feita pelas instituições foi tratada com incompreensão e muitas vezes desdém que roçava o desprezo. Chegaram a perguntar-me: 'Está à espera que as pessoas normais compreendam questões tão complexas?'. Na verdade, a democracia não teve um bom dia na reunião do Eurogrupo deste sábado! Mas as instituições europeias também não. Depois de o nosso pedido ser rejeitado, o presidente do Eurogrupo quebrou o pacto de unanimidade (emitindo uma declaração sem o meu consentimento) e tomou mesmo a dúbia decisão de convocar um encontro sem o ministro grego, ostensivamente para discutir os 'passos seguintes'. É possível a coexistência de uma união monetária e da democracia? Ou uma delas tem de desistir? Esta é a questão fundamental a que o Eurogrupo decidiu dar resposta colocando a democracia na gaveta de baixo. De momento, esperemos.»
Clicar aqui, para ler a intervenção de Varoufakis nessa reunião, do passado dia 27 de Junho.

sábado, 27 de junho de 2015

A ira contra a Grécia

Imagem de Jil Norberto
O processo negocial entre a Grécia e o trio de instituições (CE, BCE e FMI) mais os dirigentes dos países do eurogrupo é uma montra notável do que está exactamente em jogo.
A ira incontida que Lagarde, Schäuble, Dijsselbloem, Gabriel, Merkel, Rajoy e, a nível doméstico, Coelho, Albuquerque, Portas, políticos do PSD, do CDS, da maioria do PS e quase todos os comentadores que vão pululando por televisões, rádios e jornais demonstram em relação a Varoufakis e Tsipras não é antipatia pessoal nem diferença de estilos, é repulsa visceral pelas ideias que eles defendem e pelo perigo que essas ideias constituem para os grandes interesses instalados. 
O governo grego representa, de facto, um modelo diferente de sociedade, com valores diferentes, com direitos e deveres sociais diferentes, que colidem com o sistema dominante. 
Este sistema, que concentra numa minoria todo o poder e toda a riqueza, não está disponível para abdicar do poder obsceno que possui nem da riqueza obscena de que usufrui. O confronto desenvolve-se neste contexto.
Os donos da Europa têm absoluta necessidade de derrotar o governo grego: a semente que foi lançada à terra com a eleição do Syriza tem de ser destruída, não pode haver o risco de crescer e de se espalhar. Não pode subsistir a ideia de que existem outros caminhos, de que existem outras possibilidades. É esta perrogativa que, para os poderes dominantes, é necessário garantir a todo o custo.
A isto junta-se um outro elemento. É a primeira vez que o poder dominante, político e financeiro, se sente confrontado. Nunca, até aqui, isso tinha sucedido. Na verdade, até há poucos meses, o poder dominante sempre teve como interlocutores governantes nacionais de comportamento servil, e até bajulador, como foi e continua a ser o do primeiro-ministro português. A subserviência era a postura de referência. O governo grego rompeu com esse modelo, não apenas quebrou rituais institucionalizados como demonstrou uma coragem e uma resistência que até hoje ninguém tinha tido. 

domingo, 21 de junho de 2015

Poemas

ELOGIO DE ATENAS

Coro

Chegaste, estrangeiro, da terra ao lugar mais excelente,
a esta região de belos cavalos,
      Colono fulgente,
onde tanta vez o rouxinol mavioso
modula seus gorjeios,
no fundo dos vales verdejantes,
— esse habitante das negras heras,
e da floresta divina impenetrável,
de frutos mil, ao sol inacessível,
e a recato dos ventos todos invernais.
Onde Diónisos, com báquico ardor,
vagueia em companhia das deusas que o criaram.

Sob o rocio do céu, floresce
sempre, em todos os dias, o narciso
de belos cachos,
das grandes Deusas grinalda vetusta,
e o dourado açafrão.
Do Cefiso as nascentes indefesas,
das suas águas errantes, não decrescem,
mas sempre, dia a dia, acorrem a fertilizar a planura
da vasta terra, com límpida linfa.
Não a aborrecem os coros das Musas,
nem Afrodite, de rédeas douradas.

Algo existe aqui, que não consta que germine
na terra da Ásia, nem na grande ilha dórica de Pélops,
rebento que não foi pela mão semeado, mas espontâneo,
      que infunde terror aos inimigos,
      nesta terra mais que todas florescente:
      a oliveira de glaucas folhas, árvore criadora.
A ela, nem o jovem nem o ancião a destruirá,
com mão assoladora: pois Zeus Mório
      e Atena de olhos garços
a defendem, com olhar sempre vigilante.

Mas outro louvor mais potente tenho ainda a proclamar
sobre esta metrópole, dádiva de um deus excelso, glória máxima da terra:
os seus belos cavalos, belos poldros e navios.
      Ó filho de Cronos, Poséidon soberano,
      tu nos elevaste a esta glória,
      tu que nestas ruas primeiro fabricaste
o freio domador dos cavalos! E os belos remos, ajustados
às mãos, agitam à maravilha a superfície
      do mar, na esteira
do tropel infinito das Nereidas.

Sófocles
(Trad.: Maria Helena da Rocha Pereira)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O treinador e o preso

Imagem de Gustavo Almeida
Adoramos perder tempo, adoramos futilidades. O que verdadeiramente nos move é a intriga de bastidores, a insinuação e o estéril. Consumimos horas e horas, dias atrás de dias a ler, a ver e a escutar especialistas, comentadores, figuras públicas, personalidades públicas e protagonistas de todas as áreas que a vida humana consegue abranger a pronunciarem-se sabiamente sobre inutilidades e frivolidades. A penúltima ocorrência desta natureza foi motivada pela mudança de clube de um indivíduo que treina futebol. Ficámos empanturrados de opiniões, de saberes, de conhecimentos, de informações do maior interesse sobre esse extraordinário acontecimento. O planeta lusitano foi convocado para emitir parecer e compareceu. Mesas-redondas com quatro, cinco e seis peritos debruçaram-se e debruçam-se analiticamente sobre a problemática.
O assunto foi despoletado há uma semana e continua a medrar. 
Ontem, terça-feira, este acontecimento recebeu a concorrência de um outro acontecimento que passou a rivalizar com o primeiro acontecimento no domínio dos espaços informativos sobre acontecimentos. E mais especialistas, mais comentadores, mais figuras públicas, mais personalidades, mais personagens, mais protagonistas se acotovelaram num interminável frenesim de enfileiramento opinativo. Somos pródigos na produção de acontecimentos extraordinários: ontem, foi a notícia de que há um preso que vai continuar preso. E o mundo informativo desabou sobre nós: jornais, televisões e rádios encheram-se e encheram-nos com mais este acontecimento único. Badalaram-se hinos à dignidade, à coragem e à determinação; poemas e poetas foram chamados para iluminarem a coerência e até Mandela foi referido. (Será com interesse que observarei, no caso de se comprovarem os crimes de que o preso está indiciado, em que sítio os cantores destes hinos irão meter as dignidades, as coragens, as determinações e as coerências).
O treinador e o preso fizeram de tudo o resto insignificância. Comparados com estes dois, que interesse têm os problemas do nosso desemprego, da nossa saúde e da nossa educação? Que interesse tem o massacre que está a ser feito aos gregos? Que interesse têm o nosso presente e o nosso futuro colectivos?

terça-feira, 2 de junho de 2015

Consulta sobre a municipalização da educação


Da página electrónica da Fenprof:
«Em 2.075 mesas de voto, ENTRE 2 E 4 DE JUNHO, os professores votam, respondendo à pergunta “Concorda com a municipalização da Educação?”. A FENPROF disponibiliza um dossiê de apoio e informação aos professores sobre a municipalização. Neste “pacote” de documentação, os docentes poderão obter informação importante para que participem nesta consulta nacional e façam, com conhecimento do que está verdadeiramente em causa, a sua escolha.»

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma plêiade de candidatos

Imagem sem autor identificado.
Jardim, ex-presidente do Governo Regional da Madeira, admitiu recentemente que poderia ser candidato às próximas eleições presidenciais. Não admira, em Portugal, o decoro político não existe. É uma constante da nossa vida colectiva vermos personalidades com um passado político lastimoso apresentarem-se em público com um ar e um discurso notavelmente impolutos. 
Os exemplos são inúmeros. Alguns dos mais recentes.
Sócrates, ex-primeiro-ministro, depois de ter conduzido o país à ruína e à humilhação de pedir ajuda financeira externa, foi viver para Paris e de lá regressou triunfante: reivindicando, protestando, ironizando... E deram-lhe palco. E esse palco foi a televisão pública. Não tivesse sido preso, e ainda hoje o teríamos a ocupar tempo num espaço que é pago por todos nós. 
Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças de Sócrates, o responsável n.º 2 pela nossa caminhada para a bancarrota, apresenta-se amiúde nos órgãos de comunicação social como o salvador, como aquele que — depois de ter sido durante anos cúmplice de Sócrates e primeiro responsável pela desastrosa política financeira levada a cabo pelo Governo — conseguiu pressionar o seu chefe a pedir o resgate, perante a situação catastrófica do país, que o próprio tinha ajudado a construir. Aparece aqui e acolá como palestrante, como conferencista, como conselheiro... e há quem o convide e há quem se disponibilize para o ouvir. 
Durão Barroso, ex-primeiro-ministro, protagonista de uma escandalosa fuga das responsabilidades que tinha assumido, regressou de semblante vibrante, após dez anos de malfeitorias à Europa e a Portugal, autoconsiderando-se herói e merecedor de medalhas e honrarias. 
Santana Lopes, ex-primeiro-ministro (durante uns meses), modelo de futilidade e de irresponsabilidade política, demitido por cúmulo de casos anedóticos e levianos, vai-se auto-avaliando publicamente como possuído de currículo e de credibilidades suficientes para se candidatar a Presidente da República.
Não admira, pois, que Jardim — figura que, num país minimamente civilizado, teria sido espontaneamente ridicularizado pelos eleitores — se sinta ainda com o à-vontade suficiente para colocar a hipótese de poder vir a ser um candidato presidencial.
Chamem Valentim Loureiro, Pimenta Machado, Vale e Azevedo, Isaltino de Morais, Miguel Relvas, Dias Loureiro, Ricardo Salgado... e ficaremos com uma plêiade de candidatos única e admirável.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Exames Nacionais: encomendas e manipulações

Já tive oportunidade de apresentar, neste blogue, o que penso sobre os múltiplos problemas que envolvem a elaboração, realização, avaliação e classificação de exames nacionais (v. coluna lateral do blogue: «Pastas da Educação — Exames Nacionais - apontamentos»). Trata-se de um assunto sério cuja discussão pública tem sido, lamentavelmente, protagonizada por fanatismos ideológicos ou pela leviandade. 
Contudo, de quando em vez, surge alguém com lucidez a lembrar que, nesta coisa dos exames nacionais, o rei vai mesmo nu. As afirmações do presidente do Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa, proferidas no passado sábado, são disso um exemplo. Seguem-se excertos dessas afirmações, retiradas do sítio do Público:

«O presidente do Conselho Científico (CC) do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), João Paulo Leal, disse [...] que o actual Ministério da Educação e Ciência (MEC) tem feito “a encomenda dos exames nacionais”, [...] com a indicação de que se deve “manter a estabilidade nos resultados” dos alunos “em relação aos anos anteriores, porque socialmente é difícil de explicar que as notas tenham grandes variações”.» 

«Na sua intervenção, Leal [...] explicitou que aquele organismo “tem feito os exames escolhendo os itens de maneira a que se repliquem as notas dos exames dos anos anteriores”.» 

«Na conferência, [João Paulo Leal] deixou claro que se podem promover resultados, em média, mais altos ou mais baixos, alterando, simplesmente, as cotações dos vários itens ou, então, uma ou duas questões em todo o exame. Apontou como exemplo, duas perguntas de gramática muito semelhantes para não especialistas, mas que têm variações de acerto que caem de 12% para 71%, consoante se pede um verbo na negativa ou no condicional. Da mesma forma, a Matemática, indicou duas questões similares podem ter resultados díspares, de 80% ou 40%, conforme a resposta implica um raciocínio ou dois raciocínios articulados, explicou.» 

«“Hoje temos um historial de cinco mil itens a Português, por exemplo. Se quero que haja notas altas é muito fácil. Pego numa ou em duas perguntas, substituo-as por outras, aparentemente semelhantes, e a minha expectativa em relação aos resultados dá um salto de cinco valores”, sublinhou.» 

«Disse, ainda, pensar que “não é segredo para ninguém que as equipas do Iave que realizam os exames fazem uma estimativa de que resultados, em média, cada exame vai ter”: “Com uma diferença de mais ou menos um valor em vinte, acertam em 95% dos casos”, disse, sublinhando que aquelas equipas “conseguem fazer um exame para a nota que querem”.»