domingo, 24 de abril de 2016

25


O dia 25 de Abril de 1974 foi certamente o dia mais importante da história de Portugal do séc. XX. Os militares que tiveram a lucidez e a coragem de derrubar o regime que oprimia e embrutecia o país criaram as condições para que os portugueses pudessem finalmente ter acesso aos bens básicos: à Liberdade, à Paz, ao Pão, à Educação, à Saúde, à Habitação. Em poucos anos, a qualidade de vida da população portuguesa teve uma evolução enorme — não devemos esquecer, contudo, que o ponto de partida era tão baixo que qualquer transformação positiva tornava-se e tornou-se da maior importância.
Celebrar esta data é, pois, também, celebrar a melhoria de vida de milhões de portugueses.

Mas, agora, o mais importante não é comparar o que somos hoje com aquilo que éramos há 42 anos — essa comparação, sem contextualização, como muitas vezes é feita, torna-se mesmo falaciosa. O que é, com certeza, relevante fazer é comparar o que somos hoje com o que poderíamos e deveríamos ser e não somos.
Hoje temos a economia depauperada, o sector financeiro arruinado, a educação sem rumo, a saúde em regressão, o desemprego elevado, a segurança social incapacitada, pensões miserabilizadas, trabalho precarizado e futuro sem esperança. De facto, as designadas e muitas vezes enaltecidas elites portuguesas têm arruinado e desonrado o país. É esse o resultado objectivo da sua acção.
A elite política, que na última década nos governou, conduziu-nos aceleradamente ao desastre. Sócrates foi um líder impreparado, inepto e emocionalmente desequilibrado, e falta saber se, para além disto, também criminoso. Financeira e economicamente conduziu-nos à indigência. Na educação, colocou à frente do ministério uma mulher técnica e politicamente incompetente, além de patologicamente arrogante. Na Segurança Social, deu início aos cortes nas reformas. Na saúde, começou a redução dos locais de atendimento dos doentes. Foi também com ele que se iniciaram os cortes nos vencimentos, nas reformas e pensões. Os seus seis anos de governação terminaram com um pedido à Comissão Europeia para que resgatasse o país.
Passos Coelho chegou ao poder tecnicamente impreparado, mas fanatizado na meia dúzia de ideias que possuía. De perfil subserviente perante os mais poderosos estrangeiros, não hesitou em cumprir as ordens exteriores e conduziu-nos à miséria e a uma repugnante desigualdade social.
Mas a nossa ruína deve muito à nossa elite financeira, outrora apresentada como modelar. Nos últimos anos, quase nenhum banco português passou imune à incompetência ou à criminalidade. As lideranças do BPN, BPP, BCP, BES e BANIF, por inépcia ou por corrupção ou por compadrio ou por ilegalidades de natureza diversa, têm devastado a riqueza privada e, acima de tudo, têm destruído a riqueza pública. São os impostos pagos por aqueles que trabalham que têm suportado o descalabro provocado por esta associação de indivíduos sem escrúpulos.
A este cenário de desgraça, junta-se um patronato ainda globalmente grotesco e uma presunçosa classe de gestores que pouco mais vê do que a folha de Excel. Não é possível, pois, esperar destas elites nada de particularmente positivo para o país.
Até a comunicação social, que outrora foi um palco onde o debate contraditório era exercido com alguma propriedade, se tornou parceira do pântano do conformismo e do «centrão» político. A TSF, o Expresso e a SIC são os mais recentes exemplos do estado doentio a que a nossa rádio e os nossos jornais e televisões chegaram.

Sobra algum motivo para assinalarmos o 25 de Abril, para além da data histórica que não deve ser esquecida? Julgo que, neste momento, ano de 2016, temos um outro motivo: o imperativo da reafirmação de que existem alternativas à ideologia dominante na Europa, que, neste momento, só não o é em Portugal porque o actual governo está (felizmente) dependente dos apoios parlamentares do BE e do PCP. Afirmar o 25 de Abril hoje é certamente afirmar esta vitória (ainda que muito modesta) e lutar para que ela se amplie e reforce.